Fortuna crítica: José Sebastião Witter

Edição recupera obra poética de Bonfim,
o ‘cidadão-príncipe’

in Jornal A TARDE
20/2/1999

O autor de Antônio Triste ganha bela edição comemorativa de seus 50 anos de poesia, com ilustração de Tarsila do Amaral

Paulo Bonfim não precisa de apresentações. Será esta uma afirmação correta? Sim, se pensarmos nos homens e mulheres de nossa geração que tiveram professores e escolas como nós tivemos. Basta lembrar um tempo de grupo escolar em que, ao terminá-lo, já saíamos conhecendo Monteiro Lobato – em sua série infantil – e começando a ler Cidades Mortas e Onda Verde... Paulo Bonfim entrou em nosso universo com o seu livro de estréia Antônio Triste, publicado em 1947.

A poesia chegava cedo na vida de todos nós. Hoje, certamente, pensando nos jovens, é preciso fazer um pequeno retrospecto da vida do nosso Príncipe dos Poetas Brasileiros, título que Paulo Bonfim recebeu em 1991, outorgado pela Revista Brasília.

Paulo Bonfim nasceu em São Paulo em 30 de setembro de 1926, descendente de bandeirantes e de fundadores de cidades. Por sua dedicação e empenho há a comemoração do Dia dos Bandeirantes, celebrado pela primeira vez em 14 de novembro de 1961.

Atuou na área jornalística, tendo iniciado suas atividades no Correio Paulistano. Assis Chateaubriand o levou para o Diário de São Paulo, onde permaneceu por dez anos com seu “Luz e Sombra” e “Notas Paulistas” para o Diário de Notícias do Rio. Teve papel importante na televisão .

Produziu o programa Universidade na TV, com Heraldo Barbuy e Oswald de Andrade Filho, do qual pouca gente deve lembrar. Foi, de fato, atuante nesse grande universo jornalístico. Nunca o abandonou. E continuou homem público, com sua reconhecida generosidade dedicada a todos aqueles que dele se aproximaram. Poder-se-ia ainda ir destacando o seu papel de animador cultural, de historiador, de atuante e participante cidadão, interessado sempre no nosso patrimônio maior, a cultura.

O livro 50 Anos de Poesia, com ilustração de Tarsila do Amaral, chega em boa hora, permitindo que todos nós, antigos e novos, possamos acompanhar a trajetória do poeta, desde o seu iniciar com Antônio Triste. A edição é muito bem pensada e as 460 páginas que a compõem permitem um reencontro daqueles que já conheciam os passos do poeta e o encontro dos que se iniciam no conhecimento da obra de Paulo Bonfim.

Desde Antônio Triste (1947) até Súdito da Noite (1992), o poeta passeia pelo tempo e vence, com esforço e sabedoria, todos os entraves para trazer, a cada um de nós, a sua bela forma de cantar em versos a vida, a morte, o mundo, a beleza e a História.

É singular, ímpar, quando descreve personagens, como neste trecho, roubado do livro para ser dividido com o leitor:

“Lembrava-me um balão que, multicor,
Se vê no firmamento:
Não se sabe donde veio.
Não se sabe aonde vai.
Não era velho.
Não era moço,
Não tinha idade
Antônio Triste.”

Também sabe brindar o leitor com versos como este:

“Algo me veste
O existir
Algo cobre com um sorriso
A idéia de sorrir
Algo inventa palavras
Em lavras de vento
Algo arde
Nos passos em que sou tarde
Algo ama em meu amor
Algo alga em praia além
Algo alma
Em meu ninguém.”

Ou no seu “Colecionador de Minutos”:

“Abro a janela. Colho o instante que passa.”

“À meia-noite, os ponteiros se amam.”

“No calendário, os dias são vidas.”

“Saudade de tudo que não seremos.”

“De tudo somos ricos. Nada nos pertence.”

Mas, talvez, no Armorial, esteja o ponto de nossa confluência. É nesta obra, dedicada aos seus “antepassados que ainda não regressaram do sertão, estes três séculos de espera”, que encontramos, na poesia e no poeta, a obra e a alma do historiador. Por não ser possível reproduzir todo o conteúdo deste preito aos nossos desbravadores do território brasílico, ficamos com este Canto X:

“Ó pousos, ó cansaços, ó jornadas,
Parnaíbas de amor que não regressam;
Candeias inflando o breu da noite,
Cerrações, retentivas de partidas.
Tietês correndo fundo na saudade,
Rostos submersos, águas sertanistas,
Canção de remos no arraial de espumas,
Proas alimentadas de paisagem
Ó pousos não pousados duas vezes,
Ó serras, ó martírios não falados,
Ó melros decepados em vitórias...
Longo é o sono da terra adormecida
Imersos em nós mesmos contemplamos
Leões brasonados perseguindo.”

E, assim, poderíamos buscar outros e outros expressivos momentos do poeta, mas será o bastante se encerrarmos com estes versos:

“Monção de meus desejos e alegrias
Velho trono florindo desenganos,
Enfeitado de flechas e destinos
Levai meu corpo além das corredeiras
Para que me entre pela selva eterna,
Conduzindo meus próprios pensamentos.”

A completar o livro, um Apêndice muito bem pensado, original, acima de tudo por nos trazer, com muita criatividade, a genealogia do grande desbravador paulistano e cidadão-príncipe Paulo Bonfim.

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* José Sebastião Witter é professor-titular do departamento de História da USP, diretor do Museu do Ipiranga da USP e autor de Futebol e Cultura, entre outros livros.