1968

Enquanto a equipe de médicos chefiada por Eurícledes de Jesus Zerbini e Luís Decourt, realizava no Hospital das Clínicas o primeiro transplante de coração, o músculo cardíaco da civilização batia de maneira desordenada.

Em todos os cantos do planeta podia ser ouvido o ruído surdo das rebeliões irrompendo vulcanicamente da terra.

Assassinato de Luther King em Memphis, no Tennessee, a morte de Bob Kennedy em Los Angeles, a Rússia reprime com seus tanques a “Primavera de Praga”, astronautas circundam a Lua duas vezes, protestos de trabalhadores e de estudantes liderados por Daniel Cohn-Benedit sacodem em Maio, a doce França dos cançonetistas e do general De Gaulle. Longe das chamas da Guerra do Vietnã, os Beatles mergulham no Ganges à procura de paz, sob a aura do guru Maharishi Mahesh Yogi.

No Brasil, no dia 28 de março o estudante Edson Luís de Lima Souto, morre no “Calabouço” em conflito com a tropa de choque da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

O artigo que escrevi no “Diário de São Paulo” contribuiu para apressar minha saída do jornal.

Voltara à Faculdade, e esse artigo foi redigido para ser um manifesto que acabei publicando também em “A Gazeta” e lendo no programa radiofônico “Gazeta é Notícia”.

Meu regresso ao Largo de São Francisco, é recebido com alguma perplexidade pelo alunos. Era como se o fantasma de épocas mortas aparecesse no pátio com sua bandeira de sonho e de inconformismo. Embora lutando pelos mesmos ideais, falávamos linguagens diferentes.

Ao entrar no prédio, o primeiro abraço que recebi foi de Goffredo da Silva Telles, meu irmão em São Francisco.

Quando José Luís de Anhaia Mello me vê sentado entre os alunos, indaga surpreso:

– Ué, Paulo, o que você está fazendo aí?

– Sou seu aluno – respondo.

Anhaia recorda à classe que fora meu colega no Colégio São Luís e companheiro de boemia durante muitos anos. Termina dizendo que o filho pródigo voltava ao lar.

Na aula, Mauro Brandão Lopes se apresenta e pergunta se alguém ali sabia quem ele era. Da última fila respondo:

– O senhor é o professor Mauro Brandão Lopes, filho de meu amigo Juarez do Prado Lopes e de D. Glorinha.

Surpreso procura com olhos o lugar de onde vinha a resposta:

– Só pode ser o Paulo Bomfim, que é muito bem-vindo!

Quando Paulo Carneiro Maia entra pela primeira vez na sala e me vê, emociona-se lembrando de nosso relacionamento que datava da juventude; das festas em casa de Alfredo Aulix Pimentel Marques, e das reuniões na residência de meus tios Theodomiro e Cecília.

Reencontro um Paulo diferente daquele que conheci vestido com a farda do CPOR. Era um homem doente e envelhecido, que tivera derrame e se locomovia com dificuldade. Mesmo enfermo, continuava a dar aulas e a colocar seu escritório de advocacia à disposição dos alunos.

A Faculdade era uma panela de pressão mal ajustada, soltando fumaça e estremecendo à medida que o fogo se tornava mais forte.

Os alunos passam a enfrentar o professor com piadas e barulho.

Certa noite, um rapazola entra na classe com um microfone e grita:

– Inicia hoje o boicote às aulas do professor Paulo Carneiro Maia. Evacuem a sala!

Os colegas, quase todos homens de mais idade que frequentavam o curso noturno, foram saindo de cabeça baixa.

Quando a classe ficou vazia, o jovem do microfone me interpela:

– Você não vai sair?

– Não! – respondo.

– Mas é uma ordem! – retruca o outro.

Nesse instante o bedel passa com o livro do ponto e pergunta se eu não iria assinar.

– Não, não assino. Quero ter falta.

E virando para meu interpelante, prossigo:

– Como aluno tenho falta, mas como homem fico ao lado de um amigo que precisa de mim.

Paulo Carneiro Maia, entra se arrastando na sala. Vê as cadeiras vazias, olha para mim, dizendo com a voz embargada:

– Só você, meu amigo, ficou!

Do lado de fora, a estudantada tentava arrombar a porta.

Paulo Carneiro Maia pede que eu saia com ele pela saída dos professores. Não concordo e digo que sairei pela porta por onde entrara.

Quando essa porta foi aberta, o pátio estava repleto de alunos esperando minha saída.

Não pensei duas vezes, levantei-me e me dirigi para o centro do furacão.

Centenas de estudantes abrem clareira em torno de mim.

Surge então um moço forte, de fala mansa, que indaga:

– Poeta, por que você fez uma coisa dessas?

– Porque sou fiel a meus amigos e achei que a manifestação contra um homem doente como o professor Paulo Carneiro Maia era uma atitude que não cabia dentro das tradições de generosidade do Largo de São Francisco!

– Mas você assinou o livro de frequência – prossegue.

O bedel que passava no momento com o livro, abre a página onde não constava minha assinatura.

O estudante que me interpelava olha para mim, segura-me pelo braço e diz:

– Você é um samurai, vamos sair daqui.

Atravessamos aquela multidão que foi abrindo passagem, em silêncio.

Ao se despedir de mim, meu salvador diz:

– Dentro de pouco tempo as coisas vão piorar, haverá confrontos e certamente, estaremos em campos opostos. Levo comigo a beleza de seu gesto. Adeus!

O moço seguiu pela Xavier de Toledo e eu tomei o rumo da Avenida Ipiranga, onde morava.

Dias depois, os estudantes ocupavam a Faculdade.

Muitos anos mais tarde, na porta da Igreja de Santa Terezinha, na Rua Maranhão, Ary Belfort me apresenta um senhor grisalho:

– Paulo, você conhece meu irmão Ulisses?

Uma voz me saúda:

– Oi, Samurai!

Há muito tempo eu devia aquele abraço a um Ulisses que me retirou de uma Tróia incendiada de paixão.