À sombra dos pinheirais

Comovedora carta de Maria Julia Pinheiro Brandão Lopes, faz evocar seus irmãos Julio Ribeiro Neto e Elzie Lessa, todos oriundos da seiva generosa de Brás Cubas e do escritor Julio Ribeiro.

Há oito décadas caminho e sonho à sombra de pinheiros.

Na Vila Buarque, imensa araucária projetava sobre o quintal da casa de meus avós a bênção dos ramos e a chuva dos pinhões.

Outro pinheiro evocador de Natais gelados, nas margens do Reno, reunia a família em torno de tradições esmaecidas e do amor que aquecia corações. E todos cantavam, com olhos que refletiam presépios e distâncias:

- Oh Tannembaum, oh Tannembaum!

No arraial quinhentista, Pinheiros e Ramalhos lutavam por mulheres e terras, e o universo mameluco surgia desse sangue, impetuoso afluente do Anhembi que se povoava de lendas.

Na casa avarandada de uma fazenda, bordões do pinho espantavam a geada que ameaçava beijar de morte, floradas do cafezal.

Livros iam chegando às mãos inquietas das crianças, impressos no papel nascido daqueles pinheirais que rodeavam a casa hospitaleira dos Weiszflog em Caieiras. No Carnaval, serpentinas e confetes nasciam também do verde pino, flores que D. Dinis cantou e semeou para que as caravelas existissem e o Brasil fosse inventado por mastros e quilhas surgidos de árvores, cujas irmãs de Riga, suportaram arquiteturas de sonhos.

Era a época em que o Senador Pinheiro fora abatido pelo Machado de seu sobrenome, e Anesia levava aos ares as fibras de seu Pinheiro e um bairro crescia em torno dos pinheiros da sesmaria de Fernão Dias.

Tempos em que o Rio Pinheiros atravessava o Clube Germania de minha infância, e nos saraus familiares se evocava a figura ancestral do tropeiro Jesuino de Arruda chantando no sertão as sementes de São Carlos do Pinhal.

A Academia Paulista de Letras nascera há pouco, tendo como patrono da Cadeira 2, Feliciano Fernandes Pinheiro, Visconde de São Leopoldo.

Recordo com Onei Raphael Pinheiro Oricchio e Renato Pinheiro que no Judiciário paulista, Pinheiros lançavam suas raízes e os Pinheiro Franco celebravam em Mogi das Cruzes e no Guaió, seus quatro séculos de história na magia do sobrado familiar.

Victor Azevedo Pinheiro, jornalista descendente de Manuel Preto, pesquisava a saga do ancestral. Desse rastrear do passado nasceria “Manuel Preto o Herói de Guairá” dedicado a Erico Verissimo e a mim, ambos oriundos também, dos genes do lendário bandeirante.

No terraço da casa em Itanhaém, contemplando as pinhas que ladeiam o portão, volto a ter oito anos de idade. Sonho com caravelas viajeiras e com Gepeto que me ensina que de um pinu pode-se fazer também um boneco que se chamará Pinóquio.

(Brasil, país de promessas não cumpridas. Sobre a cerviz curvada rama ruma a rima de um nariz.)

Em Itanhaém, releio a carta de Maria Julia Pinheiro Brandão Lopes, aguardo a chegada de Nelson Pinheiro Franco ouvindo ao longe a música do piano de Maria Lucia Pinho.

A brisa traz do mar o recado das flores do verde pino.