Açorianos em São Paulo (nos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX)

Certa noite, encontramo-nos em casa de Manoel Otaviano Junqueira Filho: Zorita e Beatriz Junqueira de Oliveira, Gilberto de Mello Kujawski, Paulo Fernando Campos Salles de Toledo, Antonio Penteado Mendonça e eu. Alguns anos depois, a propósito de carta que o primo José Estrela Rego me envia de Ponta Delgada solicitando dados da imigração açoriana em São Paulo, rememoro aquela reunião que congregou caminhos que singraram um dia as mesmas origens.

Todos nós ali presentes, irmanados no mesmo amor a São Paulo, tínhamos, remotamente, um porto de partida nos Açores. A começar pelo anfitrião e suas primas Beatriz e Zorita Junqueira de Oliveira, que descendem de Antonia da Graça, uma das lendárias “Tres Ilhoas” chegadas ao Brasil em 1723, oriundas da Ilha do Faial; Gilberto de Mello Kujawski procede por sua mãe dos Mello Tavares da Ilha de São Miguel; Paulo Fernando Campos Salles de Toledo vem, por seu lado materno, de Francisco de Arruda e Sá, da Ilha de São Miguel; Antonio Penteado Mendonça tem suas origens nos Mendonças da Ilha Terceira e nos Penteados que provêm de Pascoal Leite Furtado, natural da Ilha de Santa Maria; e eu, neto de Sebastião de Arruda Botelho Lebeis e de Elisa de Arruda Freitas Magalhães, ambos descendentes de Sebastião de Arruda Botelho, da Ilha de São Miguel.

A presença dos ilhéus em São Paulo, ao contrário do que ocorre no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, em Minas Gerais, no Maranhão e no Pará, ainda não foi estudada em profundidade.

Os açorianos que aqui chegaram nos primeiros séculos, não devem ter estranhado a mudança de suas ilhas cercadas de azul para a ilha do planalto rodeada do verde dos sertões.

Seus hábitos foram se diluindo na terra virgem que iam conquistando, mas irrompem de vez em quando, nas cavalhadas de outrora, nas Festas do Divino, no rito de velhos carnavais, em torno das fogueiras de São João, no ponteio das violas, nas procissões, no artesanato, na música dos carros de boi, na solidão e no espírito de independência dos velhos paulistas.

Quando estive em São Miguel, hospedado no solar do primo Augusto de Athayde Soares D’Albergaria, percorrendo a ilha e me iniciando em seus mistérios pelas mãos fraternas de José Estrela Rego, Carlos Mello Bento, Victor Meireles e do encantador casal Antonio Manuel e Maria Margarida de Oliveira, que dirigem o Museu Carlos Machado em Ponta Delgada, senti-me como se estivesse voltando à casa de meus avós. Tudo que via me deslumbrava e, ao mesmo tempo, era muito familiar.

Até o cozido que comi cozinhado sobre as águas vulcânicas de Furnas, despertou em mim um rememorar proustiano. Era o mesmo cozido que minha mãe, minha avó Zilota, minha bisavó Leôncia e minha trisavó Donana, em suas quatro gerações de Arrudas, faziam!

Mas voltando aos primitivos troncos açorianos em São Paulo, na segunda metade do século XVI, João de Abreu, natural da Ilha Terceira, veio para Santos em 1568, onde se casa com Isabel de Proença Varela, neta de Bras Cubas. Foi almoxarife e provedor das capitanias de Santo Amaro e São Vicente. Tomou parte com seus agregados, nas jornadas de Cabo Frio em 1575 e de Paranaguá em 1585. Obteve duas sesmarias no litoral vicentino, falecendo em 1614. Quando aqui chegou já encontrou Pedro Afonso (dos Afonsos e Gagos das Ilhas) casado com uma índia tapuia que aprisionara.

Nessa época chegam também os irmãos Antonio Bicudo (Carneiro) e Vicente Bicudo originários da Ilha de São Miguel. Antonio Bicudo Carneiro, Ouvidor da Capitania de São Vicente em 1585, foi quem mandou levantar o pelourinho da Vila de São Paulo. Casou com Isabel Rodrigues. Participa das bandeiras de Nicolau Barreto em 1602 e de Raposo Tavares em 1628 ao Guairá.

De sua progênie se notabilizaram na epopéia sertanista: Manoel de Campos Bicudo e o legendário Antonio Pires de Campos, o “Pai Pirá”. Seu bisneto, o Capitão Antonio Bicudo Leme, o “Via Sacra”, funda Pindamonhangaba. O irmão de Antonio Bicudo Carneiro, Vicente Bicudo, faleceu na bandeira de Lazaro da Costa em 1616, nos sertões de Santa Catarina.

Dos Cabrais oriundos dos Açores e que foram tronco das mais antigas famílias paulistas, destacamos o Governador Pedro Alvares Cabral, natural da Ilha de São Miguel, casado com Suzana Moreira, filha de Jorge Moreira e de Isabel Velho, primeiros povoadores vicentinos, e o Capitão Manuel da Costa Cabral, natural da Ilha de São Miguel, falecido em Taubaté em 1659. Dessa mesma ilha é o bandeirante Manoel Frias Taveira falecido em 1690 em combate com índios missioneiros.

Outro patriarca de ilustre geração em São Paulo, foi Dom Simão de Toledo Piza, natural de Angra do Heroismo, na Ilha Terceira, casado com Maria Pedroso e que foi juiz de órfãos até 1661.

O sertanista Matias Cardoso de Almeida, pai do grande bandeirante Matias Cardoso de Almeida, também era açoriano, natural da Ilha Terceira. Segundo Alfredo Ellis Junior, teria falecido no Peru em 1662, na bandeira chefiada por Luis Pedroso de Barros, dizimada pelos índios serranos.

Fernão Dias Pais, das maiores figuras de nosso bandeirismo, era ilhéu por parte de seu pai Pedro Dias Pais Leme, oriundo dos Lemes da Ilha da Madeira, e de sua mãe Maria Leite da Silva, filha de Pascoal Leite Furtado, natural da Ilha de Santa Maria, nos Açores, que veio para São Vicente em 1599 com D. Francisco de Sousa onde se casa com Isabel Prado, filha do bandeirante João do Prado, falecido em 1596 no sertão do Paranaiba, no arraial de João Pereira de Sousa Botafogo, que daria nome ao bairro do Botafogo no Rio de Janeiro, local de sua antiga sesmaria.

Pascoal Leite Furtado era filho de Gonçalo Martins Leite e de Maria da Silva e neto paterno do fidalgo açoriano Jorge Furtado de Sousa e de Catarina Nunes Velho.

Numa predestinação esses genes enriquecedores do bandeirismo voltariam aos Açores com o casamento de Maria Leite e Mariana Leite, filhas de Borba Gato, com os irmãos Jeronimo Tavares de Arruda e Francisco de Arruda e Sá; regressariam também com a paulista Rosa Leite da Silva que se casa com o açoriano Antonio do Rego e Sá (também chamado de Arruda e Sá). Rosa descendia de Pedro Dias Pais Leme e de sua mulher Maria Leite, filha do açoriano Pascoal Leite Furtado. Seu outro antepassado Bras Cubas, fundador de Santos e Moji das Cruzes foi das maiores figuras do quinhentismo brasileiro.

O sangue de Bras Cubas, de Fernão Dias Pais e de Borba Gato irmana ainda mais o Arquipélago dos Açores com São Paulo.

Os três irmãos, Sebastião de Arruda Botelho, Francisco de Arruda e Sá e André de Sampaio e Arruda, naturais da Ilha de São Miguel, chegaram a São Paulo em 1654, indo morar em Itu. Descendiam de Gonçalo Vaz Botelho que fundou, na Ilha de São Miguel, Vila Franca no século XV.

No século XVIII encontramos em Itu o Sargento-mor João Falcão de Sousa, da Ilha de São Miguel, casado com Antonia Campos, pais de Barbara de Sousa Meneses casada com Manuel de Sampaio Pacheco, natural da Ilha de São Miguel, que foi Capitão-mor de Itu onde faleceu em 1762.

Itu torna-se um polo de irradiação açoriana em São Paulo. Para lá não foram casais de imigrantes, mas filhos segundos de famílias nobres das Ilhas, aparentados entre si, que se casaram com paulistas.

Domitila de Castro Canto e Mello, a célebre Marquesa de Santos, possuía também origem açoriana. Filha de João de Castro Canto e Mello, 1º Visconde de Castro, natural da Ilha Terceira e de Escholastica Bonifácio de Toledo Ribas, neta do açoriano Dom Simão de Toledo Piza.

A chegada dos primeiros casais açorianos à cidade de Casa Branca, em 1814, no ano de sua fundação, tão bem estudados na monografia de Amelia Franzolin Trevisan intitulada: “Casa Branca, a povoação dos ilhéus” é um dos marcos da história da imigração em São Paulo.

Do núcleo que deveria permanecer em terras doadas pelo Coronel José Vaz de Carvalho, apenas meia dúzia de famílias permaneceram na futura Fazenda dos Ilhéus: os Avila Neto, os Sousa Pimentel, os Espinola, Velloso, Cardoso e Rosa. As outras, sempre perseguidas pela má vontade do Conde de Palma, Governador de São Paulo, acabariam partindo para a Vila de São Carlos (Campinas): os Vallério, Batistas, Borbas, Cunhas, Frutuoso José e Francisco Antonio. Para Cubatão foram os Espinola Bitencourt, Raposos, Conde Paes, Correa de Mello e Machados. Na cidade de São Paulo ficou Antonio de Sousa Pacheco e na Fazenda Santana, nas terras que pertenceram no passado aos jesuítas e, anteriormente, a Salvador Pires de Medeiros e sua mulher Ignes Monteiro de Alvarenga, a famosa “Matrona” do século XVII, as famílias Nascimento, Mello e Costa.

Essa relação dos casais de ilhéus estabelecidos em São Paulo, é de Daniel Pedro Muller e data de 4 de Fevereiro de 1817.

Numa de suas andanças pelo mundo, meu avô Francisco Rodrigues dos Santos Bomfim, na época da fundação de Vila Bomfim, hoje Bomfim Paulista, passando pelos Açores onde foi procurar colonos para suas fazendas, encanta-se com a inteligência de um menino de cinco anos chamado David Pimentel que acaba trazendo para São Paulo. Esse menino vai morar em Casa Branca onde existia ainda um grupo de famílias de origem açoriana. Cresce e torna-se figura marcante em Piratininga, nome de rua e pai do jurisconsulto Professor Manoel Pedro Pimentel.

No século XIX, Martinho Prado Junior trouxe para uma de suas fazendas, na região de Ribeirão Preto, algumas famílias da Ilha de São Miguel. Em Janeiro de 1882 chegam também a Descalvado casais provenientes da Ilha de São Miguel. Em Dezembro de 1883 o “Petrópolis” aporta em Santos com outra leva de imigrantes açorianos que se dirigem para fazendas de café em Moji-Mirim, Campinas e Piracicaba.

Na Vila Carrão, em São Paulo, concentra-se hoje a maior população de açorianos e seus descendentes. A partir de 1974, comemora-se nesse bairro a Festa do Divino Espírito Santo com procissão e a Missa do Divino Espírito Santo oficiada ao final da piedosa caminhada que vai da sede da Casa dos Açores até a Igreja de Santa Marina. A quermesse da Festa do Divino é ponto de encontro dos açorianos de São Paulo. O lucro obtido com a venda do artesanato das Ilhas, da lingüiça obtida da “matança dos porcos”, tradição chegada com os imigrantes, do pão de massa sovada, das malassadas, dos doces típicos e do vinho ilhéu, destina-se a um fundo que a Casa dos Açores tem para a construção da ermida do Divino Espírito Santo.

Da Paulicéia do século XIX, as chácaras dos açorianos Paim e Pamplona agora são ruas, e as terras dos Ferreira da Rosa formaram o Jardim Europa. Caminhando pelo bairro de Pinheiros, lembramos que ali existiu outrora a fazenda do bandeirante Fernão Dias Pais, neto de açoriano.

Na música do compositor Camargo Guarnieri (Arruda Camargo Guarnieri), na pintura de Tarsila do Amaral (Estanislau do Amaral), na poesia de Amadeu Amaral (Arruda Leite Penteado Amaral), nos romances de José Geraldo Vieira (Machado, Drumond da Costa Fortuna), nos contos de Lygia Fagundes Telles, na graça de Procopio Ferreira que era Quental da Ilha de São Miguel, nos escritos de Mário de Andrade (Almeida Leite de Moraes Andrade), e na santidade do Padre Bento Dias Pacheco de Itu, pressente-se, distante, o marulhar das ondas nos Açores.

A saga dos açorianos que partiram em 1675 do Faial rumo ao Grão Pará e, em meados do século XVIII povoaram Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, transfigura-se em São Paulo no bandeirismo e pulsa numa quadra do folclore da Ilha de São Miguel:

“Quem me dera agora estar
Onde está meu pensamento,
Desta ilha para fora
E do Brasil para dentro.”