Da minha infância querida

Nasci na Maternidade São Paulo, na Frei Caneca, e morei até os dois anos num apartamento na Praça Julio Mesquita. Depois, fui com meus pais para a casa de meus avós maternos, Sebastião e Zilota, na Rua Rego Freitas, 59. Na calçada oposta moraram o Visconde de São Valentim, pai de Júlia Lopes de Almeida e avô da declamadora Margarida Lopes de Almeida, a família Paula Santos, o poeta Simões Pinto, falecido na gripe de 18, avô de Waldisia, mulher de Rossini Camargo Guarnieri. Mais para cima, nessa mesma calçada, os Albuquerque, os Bianco, os Mazei, a família de Guiomar Novaes e os tios do ator Rubens de Falco. Subindo a calçada de nossa casa, íamos encontrando as presenças amigas do cirurgião Antônio Cândido Camargo e D. Clementina, os primos Pitombo, e D. Mocinha Macedo Soares, mãe do Embaixador José Carlos de Macedo Soares.

Justino Pitombo era primo-irmão de minha avó Zilota, ambos bisnetos de Jesuíno de Arruda, fundador de São Carlos do Pinhal. Na juventude fora boêmio, companheiro inseparável de Silvio de Campos e de Alexandre Marcondes Filho. No fim da vida tornou-se católico fervoroso, comungando diariamente. Certa manhã, quando se preparava para ir à igreja da Consolação, encontra um ladrão furtando talheres na sala de jantar. Agarra o homem e se dirige com ele para a igreja onde o obriga a assistir à missa de joelhos. À saída do templo, ante o ladrão cada vez mais assustado, tira do bolso moeda de dois mil réis e a entrega a ele dizendo:

- Isso é para você aprender a ter juízo, e nunca mais roubar de gente pobre! Agora, suma daqui!

Na Epitácio Pessoa, que faz esquina com a Rego Freitas, moravam os Cunha Bueno e, se não me falha a memória, os Oliveira China. Nessa mesma rua, a Igreja Ortodoxa reunia aos domingos aristocratas russos que celebravam no exílio, a nostalgia das noites brancas.
A casa de meus avós, durante algumas décadas, foi, juntamente com a “Vila Kirial” de Freitas Valle e o salão de D. Olívia Guedes Penteado, ponto de reunião de artistas e intelectuais.

Na primeira fase desses encontros bem descritos por nosso primo Alberto Prado Guimarães em opúsculo intitulado “À Família Lebeis, uma família de Artistas”, encontramos Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Vicente de Carvalho, Olegário Mariano e Martins Fontes, ouvindo embevecidos o canto de minha tia Cecília, o piano de uma adolescente que se chamava Guiomar Novaes, e a declamação de Noêmia Nascimento Gama, Helena de Magalhães Castro e Maria da Glória Capote Valente, esposa do escultor Wiliam Zadig.

Nessa época, Vicente de Carvalho escreveu uma peça para ser representada por minha mãe, meus tios, e os jovens Guilherme e Tácito de Almeida, Mário de Andrade e Paulo Setubal. Os originais em versos devem estar hoje com o filho de tia Cecília, José Carlos Dias que traz no sangue a poesia daqueles saraus. Quando minha tia Cecília se casou com o advogado Theodomiro Dias, futuro presidente do Tribunal de Justiça, as reuniões da Rego Freitas passaram a girar em torno de outra voz maravilhosa, a de minha tia Magdalena.

Mário de Andrade continua presente. Lembro-me dele ao piano cantando “Viola Quebrada” e canção que principiava assim: - “Lá da laranjeira sabiá, a mulata é boa, sabiá, mas é lisonjeira, sabiá”.

Villa-Lobos, quando vinha a São Paulo, ia ouvir sua intérprete preferida, Magdalena Lebeis. Dessa época, a admiração que sempre me ligou ao fascínio de Magdalena Tagliaferro.

Em 36, Alfredo Mesquita encena no Teatro Municipal, “Noite de São Paulo”, onde tia Magdalena canta ao lado de Marino Gouveia, a modinha imperial “Roseas flores”.

A família Lebeis, realmente foi uma família de artistas. Mamãe tocava e cantava ao violão, minhas tias Cecília e Magdalena, foram cantoras, tio Guilherme escrevia muito bem. Suas lembranças da Revolução de 32, onde comandava o setor de engenharia da Coluna Romão Gomes, em Mococa, são antológicas. Tio Carlos, poeta e escritor consagrado, deixou um livro “País dos Quadratins” ilustrado por Portinari e “Chácara da Rua 1”, além do “Cafundó da Infância” ainda inédito, com ilustrações de Annita Malfatti. Sua esposa Yacira, foi das grandes pianistas da época, e seu filho Fernando encantou platéias cantando músicas folclóricas por ele pesquisadas.

Armando, que se tornaria o homem prático da família, foi casado com Bela, filha do arquiteto Ricardo Severo, cunhado de Santos Dumont. Severo, que construiu o prédio da Faculdade no Largo de São Francisco, o Estádio Municipal do Pacaembu, a Casa de Portugal, termina também as obras do Palácio da Justiça após o falecimento de Ramos de Azevedo. Através de Ricardo Severo, meu pai ficou conhecendo Fidelino Figueiredo, o Comandante Sarmento Pimentel, e a figura nazarena de Jaime Cortesão, que se tornaram seus clientes e amigos.

Na galeria de retratos, meu tio Raul encarna a poesia dos gestos e a música das afeições.

Martha Fairbanks Lebeis, neta de Armando, retoma a bandeira lírica da família. Entre os primos-irmãos de minha mãe, surge também a literatura nas mãos sensíveis de Maria Cecília Magalhães Duprat e Adelaide Magalhães, filhas de tia Nenê e de tio Nhonhô Magalhães. Na família de meus tios-avós, Nicota e Valdomiro Pinto Alves, destaca-se a figura de Carlos Pinto Alves, a quem Alceu de Amoroso Lima dedica comovedoras páginas. Carlos, casado com a pintora Mussia, foi amigo de Jorge de Lima, Murilo Mendes e Gustavo Corção.

Em minha infância, acompanhava mamãe e tia Cecília em visitas à casa de Artur Motta que escrevia na ocasião a História da Literatura Brasileira, ou ia ouvir a prima Sinhá Prado Guimarães falar da amizade de seu pai com Álvares de Azevedo. Sinhá morava no local onde existe hoje o Centro Cultural, na Rua Vergueiro.

Na Rua Florêncio de Abreu, a vivenda de Marieta Teixeira de Carvalho, junto ao Mosteiro de São Bento, é dos últimos pontos de referência de minha meninice, quando escutava histórias da Guerra do Paraguai, contadas por seu pai, velho desempenado, de cavanhaque branco.

A cidade da infância não era dividida em bairros, mas em toponímios afetivos. A casa de Sinésio Rangel Pestana, o atelier de D. Amélia, esposa de Numa de Oliveira, o chá de sua filha Marieta Vampré, as memórias da Viscondessa Cunha Bueno, o carinho de D. Isaura Alves de Lima, amiga de infância de minha avó Zilota, a conversa com Sinhazinha do Bacharel, a hospitalidade de D. Clotilde de Mello, o coração de D. Zizinha.

Tia Alice, irmã de meu avô Sebastião, era presença do passado. Correspondeu-se a vida toda com Carlos Magalhães de Azevedo, fundador da Academia Brasileira de Letras e nosso embaixador junto ao Vaticano. Morava na Via Emiliana, e se tornou também meu amigo.

Clarinha e Nhá Marcia eram irmãs de minha bisavó Escolástica de Arruda Botelho Lebeis, carinhosamente chamada de “Sirarinha”. Clarinha e Nhá Marcia foram inseparáveis.

Cresceram e envelheceram juntas. Um dia, Nhá Marcia adoece, vai para o hospital e morre.

Quem daria a notícia para Clarinha? Meu avô Sebastião pede à tia Alice para se desincumbir da triste missão.

Clarinha, sentada numa cadeira de palhinha, faz tricô. Tia Alice aproxima-se e, depois de grande silêncio, começa a falar:

- Pois é, Clarinha, Nhá Marcia foi para o hospital, você sabe, não é?

- Sei.

- Estava sofrendo muito, não é mesmo?

Clarinha apenas balança a cabeça. Finalmente, tia Alice mune-se de coragem e diz:

- Nhá Marcia descansou...

Clarinha imperturbável prossegue em seu tricô.

- Clarinha! Nhá Marcia morreu!

Silêncio. Apenas um levíssimo som de agulhas.

- Clarinha! – repete tia Alice – Nhá Marcia morreu!

E Clarinha, sem levantar os olhos dos fios de lã da vida que ia urdindo, diz apenas:

- Ué, Nhá Marcia é “imortá”?

Tia Alice nasceu na Rua Direita, num casarão onde D. Pedro se hospedou em setembro de 1822, e que depois foi Hotel Itália e, posteriomente, Hotel de França, de meu bisavô Guilherme Lebeis. Da janela daquele sobrado, uma velhinha da família Maragliano me contou que, quando menina, Castro Alves pedia a ela que vigiasse Eugênia Câmara, para ver se algum admirador aparecia, enquanto ia à Academia de Direito.

Perto do Hotel de França residia a família de Ibrahim Nobre, cuja irmã a escritora Tetrá de Tefé foi amiga de infância de tia Alice.

Outra de suas amigas, Nenê, contava-me com muita graça, como conhecera o jovem Pedro de Toledo num baile no Palácio do Governo, e a camélia que ofertara ao diplomata que partia para a Europa.

Na última visita que fiz à tia Alice no hospital onde agonizava, chego até seu leito e digo baixinho:

- Estive com Ibrahim Nobre, e ele me disse que você foi a moça mais bonita e mais inteligente da geração dele!

Tia Alice sussurra:

- Ibrahim se lembrou de mim? - Sorri e adormece para sempre.

O casarão da Rua Direita desaparecia também naquele momento.