Desfilando lembranças

Certa noite, jantando com Paulo Ayres e Marcinho Munhoz, lembrava com este último, as festas de seu aniversário. Houve uma que marcou. D. Heloisa, sua mãe, transformou a sala de jantar num navio, em cujo tombadilho o aniversariante com seus cachos loiros, corria de velocípede.

Por falar em navio, o cardiologista Marcos Fábio Lion, quando menino, possuía a melhor frota da cidade. Na banheira da casa de seus avós, as batalhas com miniaturas de vasos de guerra eram famosas. Sua mãe Colininha e Marietinha, esposa de meu primo Carlinhos Magalhães, eram gêmeas, filhas de Godofredo e Marieta Lion, inesquecível professora de piano, irmã de Berta casada com Walter Weiszflog, dono da Melhoramentos.

Freqüentei muito a sede da Companhia em Caieiras, e todo o carnaval recebia de presente, confete e serpentina que enviavam.

Na meninice, jogava-se às vezes futebol no jardim da mansão do futuro senador José Ermírio de Moraes. Jogava-se, até que um dia, num chute mal calculado, quebrei um vitrô e D. Helena mandou o time sair de campo.

Pouco mais tarde, Caio de Paula Machado e eu fundamos no porão da casa de seu avô Joaquim Bento Alves Lima, uma Academia de Letras onde José Luís de Anhaia Mello fez seu primeiro discurso. Fui seu colega no Colégio São Luís, seu companheiro de “Escócia” na Rua Augusta e, em minhas peripécias acadêmicas, seu aluno, muitos anos mais tarde, na Faculdade do Largo de São Francisco. Saudade dos três mosqueteiros: ele, o Bozo Pereira de Almeida e Júlio Arantes. Inseparáveis na vida e na morte!

Quando passo pela Rua Abílio Soares, sou transportado para os anos 30.

Ah, as festas em casa de Sílvia e Noé Azevedo!

Sílvia, a grande amiga de minha mãe. Numa fotografia que vai se apagando, as duas sorriem: sorriso dos doze anos, num carro de capota descida, no corso do carnaval de 1912.

Na boléia, ao lado do chofer, de cartolinha e traje escuro, Dr. Mathias Valadão, o clínico da moda, hieraticamente participa da festa.

Na residência hospitaleira da Abílio Soares, as festas eram animadas, e tudo era pretexto para que acontecessem. Laurinha e Heleninha Valadão Azevedo, amigas que não esqueço.

Os aniversários de Maria Dulce, filha de Aureliano Leite, e de Maria Alice, filha de Soares de Mello, eram comemorados alegremente por nossa geração.

Na Rua Augusta, dançávamos nos saraus de Heloísa, filha de Pequenina e Nestor Macedo. Era época da “conga”, e, atravessávamos o salão ao som de “Panamá”...

Depois viriam as festas nas casas de Suzana Pereira Barreto, Dinah Assumpção, Vera e Dinah Torres, Cidinha Cardoso e Ritinha Penteado.

Na Avenida do Estado, os reveillons de Fifi Lebre e Paulo Assumpção. Às sete horas da manhã, todos se dirigiam para a missa trajados a rigor.

E as recepções oferecidas pelos primos Ernestina e Roberto Alves de Almeida em seu palacete da Rua Marquês de Itu, onde hoje se encontra a Associação Brasileira da Indústria Têxtil.

A inteligência de Assis Chateaubriand, Horácio Lafer, Roberto Simonsen, Guilherme de Almeida, Carlos Pinto Alves, ao lado da beleza de Yolanda Penteado, Lená Amaral, Odete Matarazzo, Stela, Nélia e Vera Alves Lima, Fifi Assumpção, Maria da Penha Carioba, Bia Coutinho, Clô Prado e Cecilinha Pompeu do Amaral.

Sobre minha escrivaninha, cinco gerações acompanham o desenrolar desta narrativa: vovó Donana segurando no colo a trineta Maria Dulce, hoje esposa de Antonio Queirós Telles, vovó Leôncia, sua filha Nicota, irmã de minha avó Zilota, e Ernestina, a anfitriã perfeita daquelas festas na Marquês de Itu.

No rio do tempo flutuam os bailes do Rio Branco onde Waldemar Mariz de Oliveira, Henri Aidar, Francisco Papaterra Limongi Neto e José Carlos Vilela de Andrade ensaiavam seus passos na política acadêmica. Flutuam também as reuniões da “Arcádia Gregoriana” do Colégio São Luís, presidida pelo Padre Mariot, o jesuíta que ousou enfrentar Hitler. Meu amigo Mariot que me convidava para tomar uma cerveja sem gelo em sua sala, fumar charuto e conversar sobre o romantismo alemão. Era o ano de 1943.

Numa aula de Apologética, discuti com o reitor, Padre Banvard e acabei saindo do colégio onde meu pai, meus tios e primos estudaram, e onde meu professor de francês, Roland Corbisier, me pediu para traduzir em versos algumas fábulas de La Fontaine, e Antonio Soares Amora e Silva Azevedo me apontaram caminhos literários.

São Paulo das sorveterias, do “Motomu”, na Consolação, e da “Japonesa”, na Praça da República, onde pousava sempre a revoada de normalistas da Caetano de Campos.

São Paulo das confeitarias Vienense, Selecta, na Barão de Itapetininga; da Elite na Rua das Palmeiras, da Tomé Rios na Praça Buenos Aires. No chá da Livraria Jaraguá, nascia a revista Clima.

São Paulo dos bilhares, do frontão, das lutas de boxe e dos bailes no Centro do Professorado Paulista, no Clube Português, no Hotel Terminus, no Esplanada, no Clube Sul-Rio-Grandense, no Trianon.

Na casa de meus tios Domingas e Júlio Pontes, na Rua Bela Cintra, de longe já se ouvia o barulho inconfundível da bolinha de pingue-pongue. Os campeonatos se prolongavam pelas tardes domingueiras.

E a expectativa daqueles piqueniques em Vila Galvão, no Horto Florestal e no Jaraguá!

No Largo Padre Péricles, meu tio Guilherme Lebeis lia para mim o “Só” de Antonio Nobre, e na Alameda Tietê o piano de tia Yacyra ainda pode ser ouvido por minha saudade.

Na esquina da Bela Cintra, um prédio de apartamentos não consegue apagar a presença da casa dos tios Cecília e Theodomiro Dias com os saraus lítero-musicais onde o menino José Carlos declamava os primeiros poemas.

São Paulo das conferências de Agripino Grieco, dos sermões de Manfredo Leite e Castro Nery, dos cursos de Magdalena Tagliaferro e de Dulce Salles Cunha; das apresentações das alunas de Mary Buarque, Helena Magalhães Castro, Olenewa, Chinita Ulmann, Carmem Brandão!

Na Faculdade de Direito, as vozes de Guilherme de Almeida, Ibrahim Nobre, Oliveira Ribeiro Neto, Machado Florence e Lima Neto, ainda ecoam.

No Sedes Sapientiae, noites de Poesia com Guilherme de Almeida, Cleomenes Campos, Correia Júnior, Judas Isgorogota, Fernandes Soares, e os jovens poetas Saulo Ramos, Euríclides Formiga, José Carlos Dias, Hilda Hilst, Renata Pallotini, Dalmo Florence e eu.
Na chácara de Francisco Pati, em Tremembé, D. Clarinha recebia os amigos de seus filhos Benedito e José Luís.

O antigo Clube de Campo com sede na casa do Paraventi, amigo de Luís Carlos Prestes, e as festas de São João, com fogueiras incendiando o breu da noite. Em noites de lua cheia, próximo às cocheiras, o fantasma de Paraventi, cavalgando um cavalo branco, era visto por meninos assustados.

Num dia de tempestade, “Tutu” Paranaguá Brandão, Martins Lourenço e eu, naufragamos atirando o barco de Luís Paranaguá sobre o costão, da represa. Os náufragos voltaram de bonde “Santo Amaro” molhados, com frio e medo das conseqüências da travessura.
No dia seguinte, no Colégio Rio Branco, o naufrágio foi assunto de todos. Corria suavemente o ano de 1941.

Ensaiávamos viver.