É sempre Nove de Julho

paulo e pai em 1932 6e37c

Setenta e cinco anos depois, o clima espiritual de 32 está intacto no coração do menino envelhecido.

Não importam falhas estratégicas, a sabotagem nas munições, a indecisão dos comandos, o interesse dos políticos. Importa sim, a lembrança de um povo galvanizado em sua paixão e em seus ideais.

Papai servindo no hospital de sangue da Santa Casa, tio Guilherme, engenheiro da Coluna Romão Gomes; os primos, cada um combatendo numa frente: Julio Ignacio Bomfim Pontes, no setor sul, no Batalhão 14 de Julho; seu irmão Fernando, estudante de medicina, socorrendo combatentes na frente de luta; Carlos Pinto Alves, ao lado de Guilherme e Tácito de Almeida, Alfredo Ellis Junior e Renê Thiolier, lutando em Cunha na “Liga da Defesa Paulista”; Carlinhos Magalhães e Roberto Alves de Almeida, no “Batalhão Piratininga”; Humberto de Andrade Junqueira, na “Cavalaria do Rio Pardo”; meu futuro cunhado Humberto Gelfi, com seu inseparável companheiro o Tenente Severo Fournier, prosseguindo a luta, mesmo depois de terminada a Revolução. (O Tenente Fournier que tentaria mais tarde, tomar de assalto o Palácio Guanabara!). Recordo com o jornalista Otávio Frias de Oliveira, remanescente da “Liga da Defesa Paulista”, páginas heróicas vividas por esse contingente na Frente Norte.

Na epopéia constitucionalista, meus amigos Reynaldo Saldanha da Gama, Herbert Levy, Heliodoro Tenório da Rocha Marques e Garcia Feijó comandaram respectivamente, o Batalhão “Saldanha da Gama”, a “Coluna Romão Gomes”, o “14 de Julho” e a “Cavalaria do Rio Pardo”.

A casa da família, na Vila Buarque, transforma-se em oficina onde a avó Zilota, mamãe e tias, varam noites tricotando pulôveres, cachecóis e cobertores para os combatentes.

A residência de Tio Waldomiro, ao lado do Palácio dos Campos Elíseos, era ponto de reunião das entidades assistenciais engajadas na sacralidade da causa. Terminada a epopéia, tia Nicota cuidaria com desvelo das famílias dos exilados. Encontra-se hoje sepultada no Mausoléu do Ibirapuera.

Ah! São Paulo de 32, um só corpo e uma única alma!

Eu, com seis anos, formando com os meninos da Vila Buarque um batalhão que tinha por lema: - “Se for preciso, nós partiremos também!”

Depois, o trabalho no MMDC, próximo à Praça Ramos de Azevedo, colocando em pequenas latas, alimento e cigarro para as tropas.

Todos engajados numa causa que o sangue da mocidade tornou sagrada.

Até a cozinheira da família, alista-se na Legião Negra e passa à História com o nome de “Maria Soldado”.

Curiosamente, as pessoas que seriam decisivas em minha vida estão ligadas a 32.

A começar por Monsenhor Manfredo Leite que casa meus pais e me batiza na Igreja da Consolação, e que seria o grande orador sacro dos púlpitos do 9 de Julho e futuro eleitor para a Academia Paulista de Letras onde sou recebido num 23 de Maio de 1963 por Ibrahim Nobre, o Tribuno de São Paulo.

Na ocasião, Mauricio Loureiro Gama comentando a solenidade da posse, diria pela Televisão Tupi: - Não foi uma posse, foi um comício!

Guilherme de Almeida, o Poeta de 32, prefacia o “Antonio Triste”, meu livro de estréia e Alfredo Ellis Junior, mestre de bandeirismo, ferido em Cunha, levanta juntamente com Aristeu Seixas e Altino Arantes, minha candidatura acadêmica. Quando eleito, três homens de 32 foram ao apartamento na Avenida Ipiranga, levar a notícia: Aureliano Leite, Ernesto Leme e Oliveira Ribeiro Neto.

A Revolução Constitucionalista... foram três meses de luta ou uma eternidade contida na trincheira dos noventa dias?

Setenta e cinco anos são passados, mas a centelha permanece adormecida sob o braseiro das horas.

Soprando a cinza dos dias mortos, sentimos hoje, o calor que renasce do beijo da saudade:

- É 32 que nos fita e cobra dos vivos o compromisso com seus mortos!