Guarujá de ontem

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O Guarujá de minha adolescência, com seus chalés de madeira e suas meninas pedalantes ressurge das memórias que o vento arrasta pela praia.

A vida girava em torno do Grande Hotel, onde a juventude dourada dançava sobre o tombadilho de uma época que principiava a naufragar.

Hospedava-me, nessa ocasião, na “Casa Lusa” de Ricardo Severo, imponente sobrado revestido de azulejos com telhados portugueses, de toque oriental. Dr. Severo, pai de minha tia Bela, arquiteto, arqueólogo e intelectual notável, foi, durante muitos anos, o arauto dos portugueses em São Paulo. Ao passar diante da Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco, do Estádio do Pacaembu ou da Casa de Portugal, recordo esse artista que sonhou seus perfis.

Mesmo o Palácio da Justiça erguido pelo arquiteto Ramos de Azevedo, foi terminado pelo Dr. Severo.

Às vezes, nos finais de semana, o dono da casa chegava com seu filho Tono. Ambos excelentes nadadores, mergulhavam no mar bravio e iam se distanciando da arrebentação até se perderem no horizonte. Depois, regressavam contornando a ilhota de pedras existente em Pitangueiras.

Dr. Severo, cunhado de Santos Dumont, apresenta meu pai a Jaime Cortesão, Fidelino Figueiredo e ao Comandante Sarmento Pimentel que se tornaram seus amigos e clientes.

A subida ao Morro do Pugliese, os passeios pelas praias de Pernambuco e do Tombo, as nadadas com Lauricy Saldanha contornando a ponta das Astúrias, e as incursões até o castelinho assombrado são lembranças que a maresia não consegue corroer.

Em minha geração todos envelheceram, menos Lauricy que escolheu permanecer para sempre na radiosa beleza de seus dezoito anos.

Quase sessenta anos depois, o sorriso e a alegria dessa amiga continuam intocados. Ainda há pouco lembrava com Ilka Laurito, sua colega de Caetano de Campos, a travessia que ousou fazer.

Nada restou do Guarujá de minha juventude, sumido com a fumaça do primeiro cigarro fumado na janela do ferry-boat.

Os chalés são embarcações que a âncora dos dias mortos teima em submergir. A “Casa Lusa” e seus ocupantes moram nesta crônica. Sobre a mesa do escritório, uma fotografia registra um momento de beleza. Guarujá dos anos 30. Minha mãe, minhas tias Magdalena, Yacyra e Bela, meu pai e meus tios Raul, Carlos e Armando.

Todos transformados em silêncio!

No chão sentado, um menino me encara. O sobrevivente escreve para não morrer também.