Horas paulistanas

Diariamente, ao passar pela Praça João Mendes, detenho-me para um café na Padaria Santa Tereza, local da antiga residência e escritório do jurisconsulto que empresta o nome ao logradouro.

Na inauguração da placa da herma daquele que conspirou com meu bisavô Carlos Batista de Magalhães pelo retorno ao império, estive presente acompanhando seus descendentes o Professor Canuto Mendes de Almeida e o Desembargador Mendes França. Canuto, professor de direito, cineasta e compositor, cercava-se de estudantes fascinados por sua inteligência.

Certa feita, no corredor do quinto andar do Palácio da Justiça, ele me vê e grita:

- Paulo Bomfim, você por acaso é parente do Nosso Senhor do Bomfim?

Respondo prontamente: -Que eu saiba, não, mas como ele tem mania de grandeza, anda se dizendo meu primo.

Canuto silencia entre risos dos jovens seguidores; nunca mais me desafiou.

A Praça João Mendes já se chamou Largo do Teatro, de São Gonçalo e da Cadeia.

Em 1864, no local onde existe hoje a Catedral, junto ao quartel que daria lugar ao Palácio da Justiça, inaugurou-se o Teatro São José, obra do empreiteiro Antonio Bernardo Quartim.

Era presidente da Província, o Barão Homem de Mello, o “Moises paulista” que fizera brotar água dos chafarizes existentes nos largos do Pelourinho, Misericórdia, São Bento e São Francisco. O teatro só estaria terminado, dez anos depois, no governo de João Teodoro, nosso primeiro urbanista. Nascia sob o calor dos aplausos, em pleno romantismo e seria destruído pelo calor das chamas, em 15 de fevereiro de 1898.

Em seu palco, em 1868, Eugenia Câmara representou e Castro Alves declama sob os aplausos da mocidade acadêmica. No mesmo ano, em 3 de julho, apresenta-se o jovem pianista e futuro compositor Henrique Oswald que embarcava para a Europa, com bolsa de estudos oferecida pelo imperador. Muitos anos mais tarde, seria professor de piano de minha tia Yacyra.

Em fevereiro de 1880 o local se transforma em cenário dos bailes carnavalescos do Clube Girondinos, patrono das futuras escolas de samba de São Paulo.

Ali também, Louis Moreau Gottschalk executa as variações do Hino Nacional Brasileiro cuja interpretação traria tantos aplausos a Guiomar Novaes.

Num período de dez anos, a partir de 64, a apresentação dessa peça foi proibida. Quando dirigi o Conselho Estadual de Cultura, em noite memorável no Municipal, pedi a Guiomar que, contrariando ordens militares tocasse o arranjo de Gottschalk, o amigo do Imperador Pedro II.

No Teatro São José, sob o eco de óperas e dramas encenados pelas melhores companhias da época, entre lembranças de Eugênia Câmara e de seu poeta, de Sarah Bernhardt e das pregações abolicionistas de Antonio Bento, Arthuro Toscani iniciaria a carreira de regente.

Em frente ao teatro existia a Igreja dos Remédios, demolida em 1943 pelo prefeito Prestes Maia. Estava situada ao lado da Biblioteca Pública, próxima do antigo Largo do Pelourinho.

A igreja datava de 1727, mandada edificar por Sebastião Fernandes do Rego, figura que se destaca no fim do seiscentismo por negócios escusos e a perseguição e morte dos irmãos Leme.

Próximo, o prédio da Cadeia Velha, do tempo do Conselheiro Furtado, resiste. Torna-se sede do Congresso Legislativo. Cheguei a conhecê-lo, na década de trinta, quando aí se instalou o Serviço Social do Estado, dirigido por meu tio Carlos Magalhães Lebeis que era assessorado pelos jovens advogados, Nelson Pinheiro Franco e André Franco Montoro.

São Gonçalo Garcia, ao contrário de seu homônimo São Gonçalo Amarante, alegre e casamenteiro, foi crucificado em Nagasaki em 1579. Por esse motivo, provavelmente, torna-se em São Paulo, o protetor da colônia japonesa.

Em 1893, por sugestão de João Mendes de Almeida e do padre Cesar de Angelis, a administração do templo é passada aos jesuítas.

No ano de 1896, São Gonçalo herda algumas peças da igreja do Colégio que fora destruída.

Passando pelo largo com Ibrahim Nobre, o tribuno de 32 aponta para o relógio da torre dizendo:

- Paulo, aquele relógio veio do Pátio do Colégio e assinalou as horas mais importantes de nossa história. Repare também na pedra que encima o portal da igreja, deve ter uma memória de quatro séculos!

Em torno da mandala quinhentista, giram minutos da religiosidade paulistana.