"Insólita Metrópole" por Sonia Cintra

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O livro “Insólita Metrópole: São Paulo nas Crônicas de Paulo Bomfim” (Ateliê Editorial, 2013), organizado por Anna Luiza Martins, historiadora formada pela Universidade de São Paulo, com fotos do acervo do autor, da coleção de Maria Cecília Monteiro da Silva e do arquivo do Condephaat, entre outros, apresenta, nas crônicas garimpadas e reunidas da produção literária do autor, a visão e a revisão de um tempo-espaço da cidade em que os lugares de convivência eram os mais significativos.

Metrópoles em geral são marcadas por suas características mais inóspitas: selva de pedra, floresta de arranha-céus e mar de latas, por onde multidões circulam apressadas, entre lojas e luzes, distantes umas das outras, sem o verde da natureza, sem a memória que povoa os dias de seus habitantes. Contudo, entre eles, há os mais sensíveis, que não se deixam vencer pela monotonia dos tons de cinza e recriam as horas coloridas de seu pulsar. No caso da capital paulista, Paulo Bomfim, a quem dedicamos um artigo no início desse ano, pelo cinquentenário de ingresso à Academia Paulista de Letras, é voz poética policromática.

Ao longo dos seis capítulos do livro, a passo a passo com o poeta trajado e cronista, de olhar atento e memória fotográfica, revisitamos cenários da sua infância, as casas onde ele morou, os familiares, as amizades e os saraus, o primeiro machucado, as invocações à Santa Bárbara, em dias de tempestade. Depois, passamos às vivências da sua juventude, os anos dourados, o aprendizado acadêmico, o trabalho, a boêmia, suas lembranças de história e memória, como o episódio “Maria Soldado”, antiga cozinheira de sua bisavó, avó, tias e mãe, que por feitos de coragem e de bravura, durante a Revolução, foi eleita mulher símbolo de 1932.

Na ronda de lembranças, as mãos afetuosas dos pais e os primeiros passos pelas ruas da cidade em transformação: apagavam-se os lampiões e a Ligth implantava postes apostando no futuro iluminado. Os edifícios despontavam no horizonte da capital e as histórias da ferrovia ali narradas percorreriam mais tarde os trilhos dos versos do Poeta: “Os dormentes da estrada inda galopam; / Não são potros, nem rios, nem fazenda /”. As revoluções, a guerra, as novidades.

As décadas de 1940 e 1950 testemunharam a mocidade e as vivências de Paulo Bomfim, poeta já conhecido e participante de programas nas mídias da época. Também datam desse período suas primeiras crônicas impressas no Diário de São Paulo e nas “Notas Paulistas” do Diário de Notícias do Rio. Ele desfrutava da vida efervescente da cidade que comemorava seu IV Centenário, e onde Lygia Fagundes Telles lançava “Durante aquele estranho chá”: “Lygia vai retirando da caixa de surpresas de sua Metrópole temas e temores, os amavios da noite e a tarde que arde em febres de evocar.” Nas décadas seguintes, anima as reuniões no Clubinho dos Artistas e luta por uma sede da União Brasileira de Escritores. Inaugura com Emy Bomfim e Clóvis Graciano, a Galeria Atrium, espaço de referência e incentivo cultural até os anos de 1970.

O dobre dos sinos do Mosteiro de São Bento e os ponteiros do Relógio da Sé marcam as aceleradas horas paulistanas e o tempo lento da saudade nas crônicas de Paulo. Na Abertura de “Insólita Metrópole” ele clama: “Cidade feita de cidades, bairros proclamando independência, ruas falando dialetos, homens com urgência de viver”, cidade mal-amada a que, no entanto, ele tanto ama. E no Posfácio reitera seu amor: “Eu te amo São Paulo!”.

Prefaciadas por José de Souza Martins, que considera a obra “Ouro de aluvião da memória do nosso maior poeta, brotando à flor da terra de Piratininga.”, as crônicas são recortes de um cotidiano pleno de ternura e partilha, de refinado glamour e gentil humor de um dos mais emblemáticos moradores e amantes da capital paulista. São fragmentos de um tempo que não volta, mas que tem suas raízes plantadas na terra roxa dos cafezais. São vestígios de um mapa bandeirante diluído no insólito da modernidade que se recompõe em novo espaço de reflexão sobre a metrópole acolhedora. São rumo e referência a quem se perdeu, lugar que faz repensar e ressentir o mundo pelas mãos de um cronista que ama sua cidade. Páginas que remetem à capital da infância, ao buquê de violetas da banca de flores do Lago do Arouche, oferenda ao Poeta, que em vésperas de seu aniversário nos presenteia com este livro de crônicas, simplesmente monumental.

Obrigada, Paulo Bomfim!