Discurso de recepção à Ruth Guimarães na Academia Pta de Letras

Recebendo Ruth Guimarães

No dorido ritual do revezamento de talentos que é a vida acadêmica, parte Odilon Nogueira de Mattos, legando às mãos de Ruth Guimarães a tocha olímpica do seu saber.

Forma-se o Arco-Íris, ligando duas trincheiras de 32: Campinas e Cachoeira Paulista. Ambas sangrando glórias da epopéia paulista.

Estranha e bela a história dessa cadeira 22.

N as terras da antiga chácara do General Arouche de Toledo Rendon, primeiro Diretor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, encontra-se hoje o prédio da Academia Paulista de Letras.

O chá, que tomamos todas as quintas-feiras, foi plantado por ele, na alvorada de Piratininga.

Sob a aura do velho mestre e de seus descendentes Rego Freitas e Bento Freitas e do grande amigo da família, o Padre Amaral Gurgel, seguindo arcadas que o tempo arcou, vive este templo da cultura que tem como um de seus patronos João Monteiro Jr. e um de seus fundadores Estevão de Almeida.

Ambos os jurisconsultos, lecionando naquele largo que se alarga num abraço:

Lembranças da São Francisco

Que eu canto com emoção,

Em cada canto do Largo

Eu largo meu coração.

Depois de Estevão de Almeida, assume a cadeira que se torna trono, seu filho Guilherme de Almeida, o Príncipe dos Poetas Brasileiros.

Guilherme, o amigo de minha juventude e o nume, tutelando meus cabelos brancos, confidente e companheiro que orientou a inquietação de minha mocidade, publica em 1946, no Diário de São Paulo, o prefácio de "Antonio Triste", que sairia um ano mais tarde ilustrado por Tarsila do Amara!.

Sucedendo ao autor da "Dança das Horas" (se é que alguém conseguiria sucedê-lo), chega ao nosso convívio a figura humana e culta de um delegado de polícia, cearense enamorado da História de São Paulo: Raimundo de Menezes, autor do Dicionário Literário Brasileiro e de dezenas de livros sobre temas da Paulicéia e da vida pitoresca de certos escritores.

A esse delegado, que delegou à minha geração o direito de fazer das madrugadas, território boêmio de seus sonhos, sucede a figura de um sábio, Odilon Nogueira de Matos que aqui prossegue a tradição dos historiadores Affonso de Taunnay, Alfredo Ellis Junior, Tito Lívio Ferreira, Ian de Almeida Prado, Ernani da Silva Bruno e Sergio Buarque de Holanda.

Odilon que nos lega o exemplo de sua vida e o tesouro do seu conhecimento.

Do pranto por esses três amigos, brota a alegria de receber agora a escritora, poetisa, teatróloga, folclorista e educadora, Ruth Guimarães.

Muita água do Paraíba correu desde aquela tarde, nos idos de 46, quando descobrimos que lançaríamos nessa época nossos livros de estréia.

Foi encontro ou reencontro refletido na "Água Funda" sob a sombra dos "Filhos do Medo"?

Com Ruth conheci "Mulheres Célebres" pedi a bênção das "Mães nas Lendas e na História", convivi com "Líderes Religiosos", percorri "Lendas e Fábulas do Brasil", deslindei "Grandes Enigmas da História", tratei-me com "Medicinas Mágicas", deliciei-me com "Crônicas Valeparaibanas" e "Contos da Cidadezinha de Lorena", iluminei-me com "Os Castiçais de Santo Antonio" e descobri que minha amiga há tantas luas, é um "Caleidoscópio" de temas e imagens que não se repetem.

Ruth: há sessenta e dois anos esta casa é devedora de Você. A partir do lançamento de "Água Funda", seu livro inaugural, a Academia Paulista de Letras é porto, aguardando sua chegada.

Com os juros de nosso afeto e de nossa admiração e rodeada pela lembrança de seus amigos Mario de Andrade, Guimarães Rosa, Cid Franco e Amadeu de Queiroz e com a presença de seu prefaciador Antonio Cândido e de seu discípulo Gabriel Chalita, seja bem vinda ao convívio de seus irmãos, Ruth Guimarães, menina grisalha de Cachoeira Paulista.