Discurso de recepção à Antonio Penteado Mendonça na Academia Pta de Letras

Toques de alvorada

A cadeira ocupada ainda ontem por neto do Conde de São Joaquim passa a ser preenchida por bisneto do republicano Julio Mesquita.

Sob a predestinação do número 32, o mais jovem de nossa irmandade assume seu destino acadêmico. O número 32 nos transporta aos idos desse ano onde a família de Antonio Penteado Mendonça escreveu páginas de heroísmo e dedicação à causa constitucionalista.

Seu avô, o advogado Antonio Mendonça, seu bisavô o Senador Pádua Salles e seus tios Julio, Francisco e Alfredo Mesquita, combateram o bom combate nas linhas de frente e sofreram espinhos do exílio na saudade florindo em Portugal.

Ah, o glorioso São Paulo de 32, quando o templo dos lares se transformou na cicatriz das trincheiras, ah, minha terra, minha pobre terra envolta em treze listas de bandeira sacrossanta! Parte o poeta Geraldo Pinto Rodrigues com ritmos inovadores e poemas garimpando nostalgia e porvir. Deixa-nos, permanecendo para sempre na galeria dos espíritos protetores deste templo-abrigo de tantas tradições!

Quanta presença numa cadeira que cresce com São Paulo, cadeira entalhada pelo descendente de um carpinteiro, o Professor Lourenço Filho, ilustre educador que tive o privilégio de ter como eleitor em 1963 e companheiro neste silogeu até 1970.

Cadeira vivenciada a seguir por Fernando Goes, baiano desvairado de amores pela Paulicéia, eleito com meu voto e minha admiração; professor de entusiasmo na Faculdade de Jornalismo Casper Libero e meu vizinho de coluna nos Diários Associados.

A Cadeira 32 nasceu musicalmente ao som do "Quarteto em lá maior" composto por Ezequiel de Paula Ramos Junior, seu fundador. E os acordes atravessam partituras do tempo e se transformam na musicalidade das crônicas do empossando de hoje.

Na emoção desta noite, eu me pergunto: quando principiei a ser amigo de Antonio Penteado Mendonça?

Nossa ligação vem de muito longe, das alvoradas quinhentistas, do tropel das bandeiras, do singrar das monções, do ouro nascido das bateias, do sonho que vivemos juntos em fazendas avoengas, em remotos Açores, em madrugadas de Piratininga
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Quando meu bisavô Guilherme Lebeis se casa com Sinharinha de Arruda Botelho, a menina que entra na igreja carregando as alianças chama-se Lucila Cerqueira Cesar, filha do prócer perrepista e futura esposa de Julio Mesquita. Sua bisavó, meu caro Nico, trazia também, a aliança de nossas famílias.

Quando você me procurou na A Gazeta para que seus doze anos entrevistassem meus primeiros cabelos brancos, não nos conhecemos e sim, nos reconhecemos.

Muito Tietê rolou sob a Ponte Grande até que viéssemos a nos rever. Trazíamos para esse novo encontro o perfil evocativo daquele mundo retratado por Esther Mesquita em suas memórias e pela sensibilidade de Alfredo Mesquita, na Noite de São Paulo, onde minha tia Magdalena cantava no palco do Municipal, Róseas Flores da Alvorada, ou em "Silvia Pélica" quando as meninas Cerqueira César e Mesquita, saiam da Liberdade para brincar na Rua Direita, com as Lebeis.

Hoje, acadêmico Antonio Penteado Mendonça, sua presença tem o sortilégio de transformar crepúsculos em toque de alvorada. Por nossos nomes tutelares, por nossas tradições que se renovam, por nossa paixão por São Paulo, pela saudade e pela confiança que nascem de nossas raízes, seja bem-vindo a esta casa; beirais e taipas que se modernizam com a alegria de sua chegada!